Quebra de carga: o que é, quanto é tolerado e como não pagar a conta sozinho

O que é a quebra de carga no frete de grão, como funciona a tolerância do contrato, a conta do desconto no saldo com exemplo de bitrem de soja e o que fazer para não arcar com uma perda que não é sua.

Por Victor Campos

Bitrem graneleiro com lona verde rodando por uma rodovia entre lavouras colhidas, com acostamento de terra vermelha e outros caminhões ao fundo

O caminhão carregou 37 toneladas de soja, rodou 600 km e descarregou 36,78. O saldo do frete cai uns dias depois com R$ 440 a menos, e na linha de desconto está escrito só "quebra". Ninguém liga para explicar, o motorista já está na próxima carga e o dinheiro fica por isso mesmo. A quebra de carga é a diferença entre o peso que saiu na origem e o peso que chegou no destino. No grão ela é normal até certo ponto. O problema é quando ela passa do combinado, ou quando é cobrada de um jeito que você nem sabia que tinha assinado.

Neste post você vai ver de onde vem a quebra, como funciona a tolerância do contrato, as duas formas de cobrar que mudam a conta pela metade, um exemplo completo com bitrem de soja e o que fazer em cada viagem para não pagar uma perda que não é sua.

O que é quebra de carga

Quebra de carga é o peso que some entre o carregamento e a descarga. Ela aparece em carga a granel, como soja, milho, farelo e adubo, porque o produto vai solto na carroceria e é pesado duas vezes, em duas balanças diferentes. O verbete de quebra de carga no glossário resume o conceito e o que a lei diz sobre a responsabilidade do transportador.

O que conta para o seu bolso é que a quebra quase sempre sai do saldo do frete. Por isso ela passa batido: não é uma despesa que você paga no posto, é um dinheiro que deixa de entrar.

Por que o grão pesa menos na chegada

Nem toda quebra é culpa de alguém. As causas mais comuns:

  • Umidade. Grão que sai mais úmido perde água no caminho, ainda mais em dia quente e viagem longa. O peso cai sem perder um grão sequer.
  • Diferença entre balanças. A balança da fazenda e a do armazém nunca batem certinho. Uma balança descalibrada pode "comer" centenas de quilos por viagem.
  • Vazamento na carroceria. Borracha da tampa gasta, assoalho furado, comporta mal fechada. Grão escorrendo pelo caminho é quebra que dá para evitar.
  • Lona mal amarrada ou rasgada. Vento e chuva levam grão e trazem água, o que piora a classificação na descarga.
  • Desvio. Acontece. É a minoria dos casos, mas é o que mais assusta, e é o motivo de o contratante cobrar.

Separar a quebra natural (umidade, balança) da quebra evitável (vazamento, lona) é o primeiro passo para saber se a conta é sua ou não.

Quanto de quebra é tolerado?

Quem define a tolerância é o contrato de frete, combinado entre você e quem contrata. No transporte de soja e milho é comum ver tolerância de 0,25% do peso carregado, mas existe contrato com mais, com menos e até sem tolerância nenhuma. Não tem número que valha para todo mundo, por isso a regra é simples: leia antes de carregar.

Num bitrem com 37 toneladas, 0,25% são 92,5 kg. Ou seja, até 92,5 kg a menos na descarga é considerado normal e não deveria ser descontado.

E aqui está o detalhe que pouca gente pergunta: como a tolerância funciona quando a quebra passa dela? Tem dois jeitos, e a diferença é grande:

Tipo de tolerância Como funciona O que você paga
Franquia A tolerância é descontada sempre Só o que passou do limite
Gatilho A tolerância só vale se a quebra ficar abaixo dela A quebra inteira, desde o primeiro quilo

Contrato de franquia é o mais justo para o transportador. Contrato de gatilho pune muito uma quebra que passou pouco do limite. Pergunte qual é o seu e peça por escrito.

Como calcular o desconto da quebra no frete

A conta tem três passos:

  1. Quebra = peso carregado − peso descarregado
  2. Quebra cobrada = quebra − tolerância (na franquia) ou a quebra inteira (no gatilho)
  3. Desconto = quebra cobrada × preço do quilo do produto

O preço do quilo é o que o contrato diz: pode ser o valor da nota, a cotação do dia ou um valor fixo. Confira qual.

Um exemplo completo. Um bitrem carrega 37.000 kg de soja em Sorriso (MT) para descarregar em Rondonópolis (MT). Frete de R$ 180 por tonelada, tolerância de 0,25% e soja valendo R$ 2,00 o quilo (R$ 120 a saca). Na descarga, a balança marcou 36.780 kg. Os números são de exemplo.

Item Conta Valor
Peso carregado ticket da origem 37.000 kg
Peso descarregado ticket do destino 36.780 kg
Quebra 37.000 − 36.780 220 kg (0,59%)
Tolerância 0,25% de 37.000 kg 92,5 kg
Desconto na franquia (220 − 92,5) × R$ 2,00 R$ 255,00
Desconto no gatilho 220 × R$ 2,00 R$ 440,00

A mesma viagem, a mesma quebra, e o desconto quase dobra só por causa de uma linha no contrato.

Tem ainda um terceiro ponto: alguns contratos pagam o frete pelo peso de descarga, não de carregamento. Nesse caso, além do desconto da quebra, o frete já vem menor: 36,78 t × R$ 180 = R$ 6.620,40, em vez de R$ 6.660. São R$ 39,60 a menos que muita gente nem percebe.

Quanto a quebra tira do seu lucro

Olhando solta, R$ 255 ou R$ 440 parecem pouco perto de um frete de R$ 6.660. Mas a quebra não sai do frete, sai do lucro. Usando os custos da viagem do post sobre adiantamento de frete (diesel, pedágio, alimentação e comissão, com volta vazia, total de R$ 5.050,20):

Cenário Frete − custos − quebra Lucro da viagem Quanto a quebra comeu
Sem quebra cobrada R$ 6.660 − R$ 5.050,20 R$ 1.609,80 nada
Franquia R$ 1.609,80 − R$ 255 R$ 1.354,80 16% do lucro
Gatilho R$ 1.609,80 − R$ 440 R$ 1.169,80 27% do lucro

E isso antes de tirar a parcela, o seguro e a depreciação do mês. Se acontecer em 4 de 10 viagens do mês, no contrato de franquia são R$ 1.020 a menos (4 × R$ 255). No gatilho, R$ 1.760. Por caminhão. Para ver a conta completa da viagem com os custos fixos, o post sobre lucro por viagem mostra passo a passo.

Quem paga a quebra: o dono ou o motorista?

Para quem contrata o frete, quem paga é o transportador, ou seja, você. O que acontece entre você e o motorista é outra conversa, e ela precisa estar combinada antes.

Dois pontos para acertar com o motorista:

  • A comissão é sobre o frete cheio ou sobre o frete com o desconto da quebra? As duas formas existem. O importante é ser sempre igual e estar escrito. O post sobre comissão do motorista de caminhão mostra como cada base muda o valor.
  • Descontar a quebra do motorista é assunto delicado. Envolve a lei trabalhista e a prova de que a culpa foi dele. Antes de fazer, converse com o seu contador. Na maioria dos casos, vale mais cobrar o cuidado (lona, tampa, ticket) do que o dinheiro.

Seja qual for a regra, ela tem que aparecer no acerto de viagem do motorista, na mesma linha toda vez. Quebra lembrada só de vez em quando vira briga.

Como não pagar a quebra sozinho

O que fazer a partir da próxima carga:

  1. Leia a tolerância antes de carregar. Percentual, se é franquia ou gatilho, qual o preço do quilo e se o frete é pago pelo peso de carga ou de descarga. Print da conversa vale.
  2. Pegue o ticket da balança na origem e no destino. Sem os dois tickets, não tem como discutir. Peça para o motorista fotografar os dois e mandar na hora.
  3. Revise a carroceria na safra. Borracha das tampas, assoalho, comporta e lona. Um furo pequeno vira dezenas de quilos por viagem.
  4. Fotografe a lona fechada e o lacre na saída. É a prova de que o caminhão saiu bem fechado.
  5. Confira o desconto quando o saldo cair. Faça a conta com os tickets. Se o desconto for maior que a conta, cobre antes de pegar a próxima carga daquela empresa.
  6. Anote a quebra de cada viagem, por caminhão. Uma quebra alta é acaso. A mesma quebra alta toda vez no mesmo caminhão é vazamento; com o mesmo motorista é conversa; no mesmo armazém é balança.

O item 6 é o que mais devolve dinheiro, e é o que ninguém faz no caderno. Na planilha de controle de viagens dá para ter uma coluna de quebra por viagem e ver o padrão no fim do mês.

Na Frotze

No controle de frota da Frotze, o desconto da quebra entra na viagem, e a Frotze calcula o saldo que tem que cair, já com a quebra lançada. Quando o dinheiro chega, você confere na hora se fechou. O motorista manda a foto da nota de frete pelo WhatsApp, sem instalar nada e sem senha, e a Frotze lê e pergunta se pode lançar. Com tudo no lugar, você vê o lucro de cada viagem e de cada caminhão no mês, e recebe aviso quando uma viagem sai fora do padrão de custo daquele caminhão. Se a quebra está sumindo no meio do saldo sem ninguém ver, dá para testar grátis por 14 dias.

Victor Campos

Cofundador da Frotze

Cofundador da Frotze. Trabalha com produto e design, e passa os dias conversando com dono de frota para transformar planilha em decisão do dia a dia.

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