Como calcular o preço do frete: a conta que separa o frete bom do frete que dá prejuízo

Aprenda como calcular o preço do frete de caminhão passo a passo: custo da viagem, rateio dos custos fixos, margem, piso mínimo da ANTT e a conta do retorno vazio, com exemplo completo.

Por Victor Campos

Carreta subindo uma serra em rodovia com neblina, vista pela traseira

Quando o embarcador liga e pergunta "quanto você faz de Goiânia a Santos?", a maioria dos donos de caminhão responde de cabeça. Olha o que o vizinho cobrou, pensa no preço do diesel, chuta um número redondo. Às vezes acerta. Muitas vezes fecha um frete que só parece bom porque ninguém fez a conta até o fim.

Saber como calcular o preço do frete não é achar o número mais alto que o cliente aceita. É saber o número mais baixo que você pode aceitar sem perder dinheiro, e a partir dele negociar. Neste post você vai ver o que entra no preço, a fórmula passo a passo, um exemplo do começo ao fim, o papel do piso mínimo da ANTT e a conta que quase ninguém faz: a do caminhão voltando vazio.

O preço do frete tem três camadas

Todo frete bem precificado é a soma de três coisas:

  1. O custo variável da viagem. O que você gasta porque aquele caminhão vai rodar aqueles quilômetros: diesel, pedágio, comissão do motorista, desgaste de pneu e provisão de manutenção.
  2. A fatia dos custos fixos. O que você paga todo mês rode ou não: parcela do caminhão, seguro, IPVA, rastreador, salário fixo, contador. Cada viagem precisa carregar um pedaço dessa conta.
  3. A margem. O que sobra para você, para reinvestir na frota e para cobrir o mês em que um frete não aparece.

Quem cobra só a primeira camada trabalha de graça. Quem esquece a segunda descobre no fim do ano que o caminhão "deu lucro" em todas as viagens e o caixa está no vermelho. A diferença entre custos fixos e variáveis é a base de tudo que vem a seguir.

Passo 1: o custo variável da viagem

Comece pelo que é mais fácil de enxergar. Para uma viagem, some:

  • Diesel: quilômetros da viagem divididos pela média de consumo do caminhão, vezes o preço do litro.
  • Pedágio: o valor real da rota, por eixo. Quem não sabe consulta antes de fechar, não depois.
  • Comissão do motorista: o percentual combinado, sobre a base combinada. Veja no post sobre comissão do motorista por que a base importa tanto quanto o percentual.
  • Pneus e manutenção: o valor provisionado por quilômetro, vezes os quilômetros da viagem. Se ainda não tem esse número, use a faixa de referência do post de manutenção preventiva.
  • Extras da viagem: diária do motorista, chapa na descarga, estadia se houver, seguro da carga quando é por viagem.

Esse total é o piso absoluto. Qualquer frete abaixo dele você paga para trabalhar.

Passo 2: a fatia dos custos fixos

Some tudo que o caminhão custa no mês parado: parcela, seguro, IPVA e licenciamento divididos por doze, rastreador, salário e encargos do motorista quando são fixos, a parte dele no contador e no escritório. Depois divida pela quilometragem que o caminhão roda num mês normal. O resultado é o custo fixo por quilômetro.

Esse número é a sua reserva de sobrevivência. Uma carreta com R$ 18.000 de custo fixo mensal rodando 10.000 km por mês precisa carregar R$ 1,80 por quilômetro em cada frete só para pagar a conta de existir. Se ela roda 6.000 km, esse mesmo custo pesa R$ 3,00 por quilômetro. É por isso que caminhão parado é caro, e por isso que a quilometragem mensal real, não a que você gostaria, é a que entra na conta.

Passo 3: a margem

Sobre a soma das duas camadas anteriores, aplique a margem que você quer. No transporte de carga uma margem líquida entre 10% e 20% é comum para quem opera com custo controlado. Abaixo de 10% qualquer imprevisto vira prejuízo. Acima de 25% em rota concorrida, o cliente tende a ir embora.

A margem não é ganância. É o dinheiro que compra o pneu quando o jogo vence, que troca o caminhão daqui a cinco anos e que segura o mês de dezembro em que o frete some.

A fórmula, na prática

Juntando as três camadas:

Preço do frete = (custo variável da viagem + custo fixo por km × km da viagem) ÷ (1 − margem)

Dividir por (1 − margem) em vez de multiplicar por (1 + margem) garante que a margem seja de fato uma fatia do preço final, não do custo. Uma margem de 15% sobre o custo vira 13% sobre o preço; a divisão corrige isso.

Exemplo completo: 1.000 km de carreta

Uma carreta que faz 2,4 km/L, com diesel a R$ 6,20, comissão de 10% e uma viagem de 1.000 km carregada:

Item Conta Valor
Diesel 1.000 km ÷ 2,4 km/L × R$ 6,20 R$ 2.583
Pedágio rota consultada, 6 eixos R$ 620
Pneus e manutenção 1.000 km × R$ 0,45/km R$ 450
Diária e extras motorista e descarga R$ 250
Custo variável R$ 3.903
Custo fixo 1.000 km × R$ 1,80/km R$ 1.800
Custo total antes da comissão R$ 5.703

A comissão de 10% incide sobre o valor do frete, então ela também precisa entrar na divisão. Somando a margem de 15% aos 10% de comissão, o divisor fica 1 − 0,25 = 0,75:

Preço mínimo = R$ 5.703 ÷ 0,75 = R$ 7.604

Arredonde para R$ 7.600. Esse é o número abaixo do qual você não deveria fechar. Se o mercado paga R$ 8.500 nessa rota, ótimo, a diferença é margem extra. Se paga R$ 6.500, agora você sabe que está perdendo R$ 1.100 por viagem, e não "ganhando 6.500". O lucro por viagem é exatamente essa conta feita depois, com os valores reais.

O piso mínimo da ANTT

Desde 2018 a Agência Nacional de Transportes Terrestres publica a tabela de piso mínimo do frete, com valores por quilômetro que variam pelo tipo de carga, número de eixos e se a viagem tem retorno vazio. Ela é atualizada mais de uma vez por ano, acompanhando o preço do diesel, e consultar a versão vigente no site da ANTT antes de fechar é obrigação de quem contrata e de quem transporta.

Duas coisas para ter em mente. Primeiro, a tabela é um piso legal, não um preço justo para a sua operação: ela foi calculada com médias nacionais, e o seu caminhão pode custar mais do que a média. Se a sua conta der acima da tabela, a sua conta manda. Segundo, a tabela é o argumento mais forte que você tem numa negociação. Um embarcador que oferece menos que o piso está fora da lei, e você pode dizer isso com o número na mão.

A conta do retorno vazio

Aqui mora o erro mais caro da precificação. O frete de ida cobre 1.000 km carregados. Mas se o caminhão volta vazio, ele roda 2.000 km para entregar uma carga só. O diesel da volta é um pouco menor, o pedágio é igual, o desgaste é quase igual e o custo fixo não muda em nada.

Há dois jeitos de tratar isso, e os dois precisam ser conscientes:

  • Cobrar a volta na ida. O preço da ida carrega parte ou todo o custo do retorno. É o que a tabela da ANTT faz na coluna de "retorno vazio". Fica caro, mas é honesto.
  • Aceitar um frete de retorno mais barato. Se a ida já pagou os custos fixos dos 2.000 km, o frete de volta só precisa cobrir o custo variável e dar alguma margem. Um frete de retorno a R$ 4.500 pode valer a pena quando a ida foi fechada a R$ 8.500, e ser prejuízo puro quando a ida foi fechada a R$ 6.000.

O erro é fazer nenhum dos dois: cobrar a ida como se fosse voltar cheio e aceitar a volta como se a ida tivesse pago tudo.

Os erros que mais estragam a conta

  • Usar o diesel de ontem. O preço muda toda semana. A conta tem que usar o valor da bomba onde você vai abastecer, no dia.
  • Esquecer a comissão no divisor. Aplicar 10% depois de fechar o preço come a margem inteira.
  • Ratear o custo fixo pela quilometragem que você gostaria. Se o caminhão roda 6.000 km por mês, é esse número que divide a conta, não os 12.000 do mês bom.
  • Não provisionar pneu e manutenção. No mês em que nada quebra parece que sobrou dinheiro. É a reserva do mês seguinte.
  • Precificar pelo vizinho. O vizinho pode ter caminhão quitado, motorista da família e uma conta diferente da sua. Ou pode estar perdendo dinheiro sem saber.

Como fazer essa conta em um minuto, toda vez

O passo a passo acima parece longo, mas os números que mudam de uma viagem para a outra são só quatro: quilômetros, diesel do dia, pedágio da rota e extras. Todo o resto, a média de consumo, o custo fixo por quilômetro, a provisão de pneu e manutenção, o percentual de comissão, é fixo por caminhão e precisa estar calculado uma vez e guardado.

Se você ainda não tem esses números, comece pelo custo por quilômetro, que junta tudo em um valor só por caminhão. A calculadora de custo por quilômetro faz essa conta no navegador, sem cadastro, e a calculadora de lucro por viagem mostra o que sobra de um frete específico.

Na Frotze, cada caminhão tem a média de consumo e o custo por quilômetro calculados sozinhos a partir das viagens e abastecimentos lançados. Quando você cria uma viagem com a rota e o valor do frete, o lucro esperado aparece antes de você aceitar, com diesel, pedágio, comissão e taxa da intermediadora já descontados. E depois que a viagem fecha, o lucro real fica ao lado do esperado, para você saber se a sua conta estava certa.

Comece pela próxima ligação. Antes de responder o preço, pergunte a quilometragem, olhe o diesel do dia e faça a conta das três camadas. Se o resultado der acima do que o cliente ofereceu, você acabou de descobrir um frete que ia dar prejuízo. Se der abaixo, você acabou de descobrir quanto pode negociar.

Victor Campos

Cofundador da Frotze

Cofundador da Frotze. Trabalha com produto e design, e passa os dias conversando com dono de frota para transformar planilha em decisão do dia a dia.

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