Frete de retorno: voltar vazio ou pegar a carga barata? A conta que decide

Como saber se o frete de retorno compensa: a conta da viagem inteira, ida e volta, um exemplo completo de bitrem no grão e o valor mínimo que vale aceitar na carga de volta.

Por Victor Campos

Bitrem graneleiro com lona verde rodando em rodovia de asfalto entre lavouras colhidas, com outro caminhão vindo ao fundo e acostamento de terra vermelha

Você entregou a soja no armazém, descarregou, e agora tem 600 km de volta pela frente. Aí liga alguém oferecendo uma carga de adubo pela metade do preço da ida. Pegar ou voltar vazio? Muita gente decide pelo orgulho ("não vou trabalhar de graça") ou pelo desespero ("qualquer coisa é melhor que nada"). O frete de retorno merece uma conta, não um palpite.

A resposta curta: o frete de volta vale a pena quando paga o que o caminhão gasta a mais por voltar carregado, e ainda sobra alguma coisa. Ele não precisa pagar o custo cheio do caminhão, porque a volta vai acontecer de qualquer jeito. Neste post você vai ver a conta da viagem inteira, um exemplo de bitrem no grão com todos os números e o valor mínimo que separa um retorno bom de um retorno que só dá trabalho.

Por que o frete de retorno paga menos?

Quem contrata a volta sabe que o caminhão vai passar por ali de qualquer jeito. Na safra, isso fica escancarado: tem muito mais grão descendo para os armazéns e portos do que carga subindo para as regiões produtoras. Sobra caminhão vazio voltando, e quem tem carga para mandar nesse sentido paga menos.

No grão, a carga de volta mais comum é adubo, calcário e outros insumos que vão para as fazendas. É uma combinação que funciona bem, porque o graneleiro leva e quem planta precisa receber. Mas a oferta de retorno não é igual o ano todo, nem em toda rota. Por isso o preço da volta varia tanto.

Como saber se o frete de retorno compensa

O erro mais comum é olhar a volta sozinha: "R$ 4.000 por 600 km dá menos que o meu custo por km, não compensa". Essa conta está errada porque compara a volta carregada com nada. A comparação certa é voltar carregado contra voltar vazio, porque são essas as duas opções que você tem.

Voltando vazio, o caminhão já gasta diesel (um pouco menos), pneu, manutenção e pedágio. O custo fixo, aquele da parcela, do seguro e do salário, corre do mesmo jeito. Então o frete de volta só precisa cobrir a diferença:

  • o diesel a mais por rodar pesado;
  • o desgaste a mais de pneu e manutenção;
  • a comissão do motorista sobre o frete da volta;
  • o tempo a mais: espera para carregar, desvio até o ponto de carga, um dia extra na estrada.

Tudo o que o frete da volta pagar acima disso é lucro que você não teria voltando vazio. A calculadora de frete de retorno faz essa comparação com os seus números.

Exemplo completo: bitrem no grão, ida com soja e volta com adubo

Os números abaixo são de exemplo, para mostrar a conta. Troque pelos seus.

  • Bitrem com 37 toneladas de soja, 600 km da fazenda até o armazém.
  • Frete da ida: R$ 250 por tonelada, ou R$ 9.250.
  • Diesel a R$ 6,20 o litro. Carregado, o bitrem faz 2,2 km/l (R$ 2,82 por km). Vazio, faz 2,8 km/l (R$ 2,21 por km).
  • Pneu, manutenção e Arla: cerca de R$ 0,90 por km.
  • Arredondando, o custo variável fica em R$ 3,70 por km carregado e R$ 3,10 por km vazio.
  • Pedágio: R$ 400 em cada sentido, no exemplo.
  • Comissão do motorista: 10% do frete.
  • Custo fixo do caminhão: R$ 30.000 por mês, ou cerca de R$ 1.000 por dia.

Voltando vazio, a viagem leva 3 dias. Pegando a carga de volta (adubo a R$ 110 por tonelada, R$ 4.070), leva 4 dias, por causa da espera para carregar.

Item Volta vazia Volta com adubo
Frete da ida R$ 9.250 R$ 9.250
Frete da volta R$ 0 R$ 4.070
Comissão (10%) − R$ 925 − R$ 1.332
Diesel, pneu e manutenção na ida (600 × R$ 3,70) − R$ 2.220 − R$ 2.220
Diesel, pneu e manutenção na volta − R$ 1.860 (600 × R$ 3,10) − R$ 2.220 (600 × R$ 3,70)
Pedágio − R$ 800 − R$ 800
Custo fixo dos dias de viagem − R$ 3.000 (3 dias) − R$ 4.000 (4 dias)
Sobra da viagem R$ 445 R$ 2.748

O frete de volta pagou menos da metade da ida e ficou abaixo do custo cheio do caminhão naqueles 600 km. Mesmo assim, a viagem passou de R$ 445 para R$ 2.748. São R$ 2.303 a mais com a mesma ida.

Repare também na coluna da volta vazia: um frete de R$ 250 por tonelada parecia bom, mas sem retorno sobrou pouco. É a mesma lição do guia de como calcular o preço do frete: se você sabe que vai voltar vazio, a volta tem que estar no preço da ida.

Qual o valor mínimo do frete de retorno?

Dá para achar dois números na mesma conta. No exemplo:

Valor da volta Quanto dá O que significa
Empata com voltar vazio R$ 1.511 (cerca de R$ 41 por tonelada) Abaixo disso, voltar vazio é melhor. Recuse.
Paga o custo variável da volta e o dia a mais R$ 3.578 (cerca de R$ 97 por tonelada) A partir daqui, a volta é um bom negócio.

De onde vêm esses números:

  • Ponto de empate: voltar carregado custa R$ 360 a mais de diesel e desgaste (R$ 2.220 menos R$ 1.860) e R$ 1.000 de um dia a mais de custo fixo. São R$ 1.360. Como a comissão leva 10% do frete, a volta precisa ser de R$ 1.360 ÷ 0,9 = R$ 1.511.
  • Mínimo saudável: o custo variável inteiro da volta carregada (R$ 2.220) mais o dia a mais (R$ 1.000) dá R$ 3.220. Com a comissão, R$ 3.220 ÷ 0,9 = R$ 3.578.

Entre os dois, a volta ainda deixa a viagem melhor do que voltar vazio, mas sobra pouco. Serve para uma vez ou outra, quando não aparece nada melhor. O adubo a R$ 110 por tonelada do exemplo está acima do mínimo saudável, por isso compensou bem.

O dia a mais pesa muito nessa conta. Se a carga de volta exige dois dias de espera no pátio, o mínimo sobe R$ 1.000 por dia. A calculadora do caminhão parado mostra quanto custa o seu dia parado. E lembre que o frete da volta, como qualquer frete, não pode ficar abaixo do piso mínimo da ANTT; confira na calculadora oficial da ANTT antes de fechar.

O cuidado: retorno barato não pode virar regra

A lógica do frete de retorno funciona porque a ida já pagou o custo fixo. Se o caminhão passa a rodar quase só com frete de retorno, ou se a ida também é fechada no preço da volta, ninguém está pagando a parcela, o seguro e o salário. A conta de cada viagem parece positiva e o mês fecha no vermelho.

É a diferença entre custo variável e custo fixo, explicada no post sobre custos fixos e variáveis do caminhão. O variável é o piso de qualquer frete. O custo cheio, o custo por km com tudo dentro, é o que o caminhão precisa faturar na média do mês.

O que fazer amanhã para voltar menos vazio

  • Calcule os seus dois mínimos uma vez por caminhão. Com o custo variável carregado e vazio e o custo do dia parado na mão, você responde a proposta de retorno na hora, ao telefone.
  • Procure a volta antes de sair. Cooperativas, revendas de adubo e calcário, armazéns e outros transportadores da rota costumam ter carga para o sentido contrário. Quem procura no dia da descarga aceita o que aparecer.
  • Pergunte o tempo de carga. Uma volta bem paga que faz o caminhão esperar dois dias pode ser pior do que uma volta menor que carrega na hora. Se passar das 5 horas, anote o horário: a estadia também vale na volta.
  • Lance a ida e a volta como uma viagem só, ou ligadas. Assim o lucro por viagem mostra o resultado de verdade da rota, e não uma ida linda com uma volta escondida.
  • Conte quantas voltas foram vazias no mês. Se é a maioria, o problema não é o retorno, é o preço da ida.

Na Frotze

No controle de frota da Frotze, cada viagem fica registrada com o frete, as despesas e o resultado, e a nota de frete pode chegar por foto no WhatsApp. O lucro de cada caminhão no mês mostra se as voltas baratas estão ajudando ou se estão escondendo um frete de ida mal cobrado. É o jeito de parar de decidir o retorno no grito e passar a decidir com o número do seu caminhão. Dá para testar grátis por 14 dias.

Victor Campos

Cofundador da Frotze

Cofundador da Frotze. Trabalha com produto e design, e passa os dias conversando com dono de frota para transformar planilha em decisão do dia a dia.

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